O Exército do Sudão (SAF) conseguiu avanços recentes no terreno — retomando cidades ao longo da estrada estratégica de exportação conhecida como Sadirat e empurrando as Forças de Apoio Rápido (RSF) para uma posição defensiva no centro do país. Mas, segundo uma análise da Al Jazeera, a vitória militar completa sobre as RSF não garante resolução política; em vez disso, pode fragmentar a guerra em vários conflitos locais e manter redes armadas autônomas ativas.
Ganho territorial do SAF e contra‑ataques da RSF
A análise destaca que, embora o SAF tenha recapturado vários pontos ao longo da Sadirat e mostrado tração no centro do Sudão, a RSF continua capaz de lançar operações significativas fora de seu reduto tradicional em Darfur.
Em meados de agosto, a RSF e o aliado Sudan People’s Liberation Movement‑North (liderado por Abdulaziz al‑Hilu) retomaram Kurmuk e capturaram Geisan, ações que fontes militares sudanesas disseram ter sido lançadas a partir do território etíope. Ataques com drones contra cidades controladas pelo exército neste mês também evidenciam que o alcance da RSF se estende além do oeste do país.
O padrão observado no verão, segundo a análise, mostra avanços em algumas frentes e contra‑ataques em outras, indicando que ganhos territoriais do SAF não equivalem, por si só, a uma derrota estratégica que ponha fim ao conflito.
Coalizão anti‑RSF: aliados valiosos, autonomia persistente
O SAF tem combatido com o apoio de uma coalizão de movimentos armados aliados, incluindo facções de Darfur que assinaram o Acordo de Paz de Juba de 2020. Entre eles estão o Justice and Equality Movement (JEM), ligado ao ministro das Finanças Gibril Ibrahim, e o Sudan Liberation Movement de Minni Minnawi.
Embora o acordo de 2020 previsse a integração dessas forças nas instituições militares e de segurança, a análise observa que esses grupos relutam em perder a autonomia militar que lhes garante influência política. Discursos e promessas feitas por comandantes do exército — como Yasser al‑Atta e o então vice‑comandante Shams al‑Din Kabbashi — de criar leis e estruturas para integrar e controlar grupos irregulares ainda não se converteram em mudanças práticas significativas.
Essa margem operacional de independência mantém a alavancagem política desses aliados e aumenta a probabilidade de que permaneçam atores autônomos após qualquer vitória militar sobre as RSF.
Fragmentação dentro da RSF e risco de forças pessoais
A própria RSF tem mostrado sinais de fragmentação: defeções de nomes seniores como al‑Nour al‑Qubba, al‑Savanna e o governador nomeado pela RSF em Kordofan, Hamad Khalifa, envolveram a saída de combatentes e equipamento — episódios que, segundo a análise, ilustram a natureza mais “franquia” do que força coesa das RSF.
Quando comandantes deixam a RSF carregam contingentes organizados leais a seus próprios líderes, não tropas habituadas a subordinação a uma cadeia única de comando. Isso cria unidades intactas que podem agir como forças políticas e militares independentes, em vez de simplesmente dissolver‑se.
Um exemplo citado é Abu Aqla Keikel: oficial treinado pelo SAF que mudou de lado e hoje comanda as Sudan Shield Forces, uma formação que, na prática, permanece mais subordinada ao seu líder do que a qualquer integração formal ao exército.
Limitações do Estado, Darfur e os caminhos da pós‑guerra
A análise ressalta um problema estrutural anterior ao conflito atual: o Estado sudanês historicamente teve dificuldade em projetar poder sustentado nas periferias. Sob Omar al‑Bashir, o governo contou com milícias Janjaweed; muitos desses combatentes foram incorporados posteriormente à RSF.
Em regiões extensas como Darfur — comparada à França em dimensão — o SAF enfrenta desafios logísticos e de controle, enquanto as RSF continuam a usar rotas transfronteiriças para suprimentos. Para a análise, mesmo uma derrota militar das RSF não fará desaparecer imediatamente armas e combatentes: é provável que esses recursos migrem para outros atores dispostos a apropriá‑los.
O chefe do SAF e líder de facto, Abdel Fattah al‑Burhan, lançou um diálogo nacional e afirmou que líderes das RSF não retomariam o poder. Ainda assim, a análise observa que promessas anteriores sobre leis e mecanismos de integração avançaram pouco na prática, e permanece a questão de como desmontar ou absorver as forças remanescentes e as milícias aliadas do próprio SAF.
Enquanto não houver um plano claro e implementado de desmobilização e integração — sobretudo em áreas onde a RSF opera por vias transfronteiriças — a tendência, segundo a análise, é de persistência da fragmentação: o conflito pode se transformar num mosaico de confrontos locais e estruturas armadas autônomas, mesmo na hipótese de derrota militar das RSF.
Em suma, a análise da Al Jazeera conclui que os ganhos militares recentes do SAF não garantem uma resolução política nem a desmobilização automática das forças armadas irregulares; sem mecanismos eficazes de integração e controle, o Sudão corre o risco de permanecer preso a um conflito disperso.
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