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Trabalhadores nos EUA adaptam modelo dos tomateiros para forçar proteções contra calor

Organizações como WeCount usam a estratégia da Coalition of Immokalee Workers — baseada em códigos de conduta e pressão sobre grandes compradoras — para exigir medidas contra calor extremo em fazendas, estufas e outros locais de trabalho; a abordagem enfrenta…

Trabalhadores nos EUA adaptam modelo dos tomateiros para forçar proteções contra calor
Imagem de capa: Prburley — CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.
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Organizações trabalhistas nos Estados Unidos estão reaplicando a estratégia da Coalition of Immokalee Workers (CIW) — conhecida pelo programa Fair Food na produção de tomates — para pressionar varejistas e produtores a adotarem proteções contra calor extremo no trabalho. A tática usa a reputação das grandes marcas como alavanca: ao condicionar compras a práticas de trabalho, cria um mecanismo de cumprimento que opera fora dos canais regulatórios tradicionais.

Como o programa da CIW exerce pressão sem depender do Estado

O núcleo do modelo é um código de conduta para produtores combinado com acordos com grandes compradores. Varejistas que aderem concordam em pagar um pequeno prêmio para comprar de fazendas que cumprem o código; produtores que violam as normas perdem o status preferencial e, com isso, perdem acesso a compradores importantes.

O método, descrito por estudiosos como “market-based enforcement”, permite que trabalhadores façam cumprir direitos básicos sem depender unicamente da fiscalização governamental. Entre as proteções já previstas estão sombra, água potável fria, intervalos remunerados, treinamento sobre doenças relacionadas ao calor e acesso a atendimento médico sem retaliação.

Na prática, essa pressão de mercado foi obtida por meio de campanhas públicas e ações diretas: boicotes, greves de fome e protestos ajudaram a convencer grandes cadeias a ingressar no programa. Hoje, o Fair Food da CIW conta com 14 grandes varejistas participantes, incluindo Walmart, McDonald’s, Whole Foods e Trader Joe’s.

Com o agravamento das temperaturas, o programa também adicionou requisitos mais específicos: neste ano, passou a exigir que fazendas participantes ofereçam acesso contínuo a eletrólitos.

Quem está adaptando o modelo e por que a Flórida é estratégica

O grupo WeCount, formado por trabalhadores imigrantes do sul da Flórida, está levando a abordagem para além dos tomateiros com a iniciativa “planting justice”. O alvo inclui grandes produtores de plantas de interior, serviços de construção, laticínios e plantações de açúcar, entre outros setores com trabalhadores expostos ao calor.

A escolha da Flórida não é casual: o estado produz cerca de 70% de todas as plantas de interior vendidas nos EUA, e trabalhadores em estufas relataram temperaturas superiores a 100 ºF (37,8 ºC) durante o verão, com sintomas de desidratação e relatos de sensação de desmaio, disse Oscar Londoño, co-diretor executivo do WeCount.

WeCount já tem ações coordenadas contra grandes produtores, com foco recente na Costa Farms, um dos maiores cultivadores de plantas de interior do mundo. As ações incluíram mobilizações em locais da empresa na Flórida, Carolina do Sul e Virgínia após o Dia do Trabalho.

Barreiras legais enfrentadas e riscos de saúde documentados

As iniciativas baseadas em normas locais e federais enfrentam obstáculos. Em nível local, um projeto de ordenança do condado com penalidades financeiras e medidas acionáveis quando o índice de calor atingisse 90 ºF (32,2 ºC) — prevendo pausas pagas, acesso a água e procedimentos de primeiros socorros — foi vetado por uma lei estadual da Flórida que proibiu esforços locais semelhantes.

No plano federal, a norma proposta pela Occupational Safety and Health Administration (OSHA) para proteção contra calor está estagnada, e uma proposta legislativa introduzida por um deputado em novembro poderia impedir sua implementação, segundo as fontes citadas.

Os riscos de saúde associados ao calor já se materializaram: houve mortes ligadas à exposição ao calor — incluindo um caso em setembro no Mississippi e outro no ano anterior em Immokalee — e hospitais no Texas reportam aumento de casos de doença renal entre trabalhadores ao ar livre. Roy McAllister, diretor de segurança ocupacional do sindicato UFCW, alertou que muitos ambientes industriais e de armazenagem continuam sem ventilação adequada ou ar-condicionado.

O que o modelo já conquistou e quais são os próximos passos

O histórico da CIW mostra que a combinação de campanhas públicas e acordos comerciais pode gerar mudanças substanciais: após anos de pressão, varejistas passaram a pagar mais por produtos de fazendas que seguem o código, e o programa ampliou requisitos de proteção conforme as necessidades se tornaram mais claras — como a inclusão recente do fornecimento de eletrólitos.

Agora, WeCount busca replicar esse padrão em outros setores transformando compromissos de empresas como a Costa Farms em um “novo padrão de ouro”. A própria Costa Farms informou ao jornal que já adota medidas como treinamento pago, plano de prevenção de doenças relacionadas ao calor, auditoria de folha de pagamento, sistemas de controle de ponto sob responsabilidade do empregado e suporte médico no local, e que recebeu pedidos para integrar o programa do WeCount.

Sem uma norma federal efetiva e aplicável, organizadores e especialistas veem na pressão direta sobre marcas e compradores um caminho pragmático para ampliar proteções. O desfecho depende agora de quantas empresas aceitarão formalizar compromissos e de como a estratégia resistirá às barreiras legislativas e aos desafios de implementação no terreno.

Fonte consultada: The Guardian - Business

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