O governador do Banco da Inglaterra, Andrew Bailey, afirmou que regular a inteligência artificial não é o ponto de partida adequado e pediu, em vez disso, testes rigorosos para identificar vulnerabilidades e criar salvaguardas. A declaração, publicada numa coluna para o Substack do banco e relatada pela BBC e pelo The Guardian, ressalta tanto os riscos crescentes quanto os benefícios potenciais da tecnologia.
Bailey: começar por testes técnicos coordenados e com humildade
Na sua estreia como articulista para o Substack do banco, Bailey disse que os riscos associados à IA são "reais e cada vez mais significativos", mas que os benefícios "são imensos". Por esse motivo, argumenta que é preciso um "sistema de intervenção" que defina limites operacionais e permita rever esses limites à medida que a tecnologia evolui.
O governador apontou que o Reino Unido já trabalha em iniciativas relevantes, como a criação do AI Security Institute, que pode contribuir para um conjunto de padrões a orientar os ensaios técnicos. Em sua avaliação, o foco inicial deve ser entender onde e como os modelos falham antes de avançar para debates sobre arquitetura regulatória.
Bailey advertiu ainda que os testes gerarão comportamentos inesperados e falhas — o que ele vê como razão para testagem contínua, não como prova de que os ensaios falharam. Ele acrescentou que, ao longo do tempo, um quadro regulatório mais formal pode vir a ser necessário, mas essa discussão deveria progredir apenas depois de identificadas as falhas concretas a corrigir.
Como modelos descontrolados podem afetar serviços financeiros essenciais
Autoridades têm expressado preocupação de que modelos de IA "fora de controle" possam reduzir a capacidade de supervisão e até "tomar o sistema financeiro como refém", segundo o The Guardian. Esse risco está associado a um aumento da escala e da sofisticação de ameaças cibernéticas direcionadas ao setor.
Especificamente, fontes citadas destacam que as consequências potenciais incluem impactos em pagamentos com cartão, transferências bancárias diárias e nas operações de negociação de ações e títulos. A perda de capacidade de intervenção rápida é apresentada como um fator que amplifica o risco sistêmico.
Esses pontos reforçam a posição de Bailey sobre a necessidade de identificar pontos críveis de intervenção por meio de ensaios que revelem como os modelos se comportam em cenários de falha.
Endividamento ligado à IA e exposição dos mercados
O comitê de política financeira (FPC) do Banco da Inglaterra alertou que o aumento do endividamento relacionado a empresas de IA amplia os riscos à estabilidade financeira. Nas atas da reunião de 25 de setembro, o FPC registrou que grandes atores do setor assumiram US$ 450 bilhões em dívida entre janeiro e setembro deste ano.
Esse montante, segundo o comitê, já supera os US$ 333 bilhões previstos em gilts que o governo do Reino Unido planeja emitir para todo o ano de 2026. O FPC enfatizou que essa rápida acumulação de dívida amplia a exposição de investidores — incluindo hedge funds, gestores de ativos e fundos de crédito privado — às fortunes de empresas de IA que, em muitos casos, ainda não são lucrativas.
O comitê concluiu que é crucial gerir esses riscos de maneira oportuna e cuidadosa, dado o caráter interconectado e em aceleração dos fatores que podem afetar os mercados de capitais.
Responsabilidades e medidas já em curso entre reguladores e empresas
Além da defesa do direito de intervenção por parte das autoridades, há mensagens convergentes sobre a necessidade de acelerar testes coordenados, mas com humildade frente à complexidade dos modelos. Bailey e fontes citadas indicam que só com ensaios bem desenhados será possível identificar "pontos críveis" para ação regulatória ou supervisória.
Executivos de grandes empresas de IA, como Anthropic e OpenAI, têm pedido uma desaceleração no desenvolvimento e apoio a coordenação internacional para avaliar riscos e instalar salvaguardas. A BBC reportou que, num encontro recente, empresas assinaram um documento descrito como "moralmente vinculante" em que se comprometem a assumir responsabilidade pela segurança de suas tecnologias.
Como exemplo de medidas internas adotadas pelas empresas, as reportagens mencionam que a OpenAI suspendeu o lançamento de um novo modelo por motivos de segurança. No plano público, a expectativa apontada pelas fontes é que os padrões do AI Security Institute e os resultados dos testes coordenados orientarão decisões futuras do Banco da Inglaterra e do FPC sobre possíveis intervenções formais.
Em síntese: está confirmado que o governador do Banco da Inglaterra defende testes rigorosos e um polo de intervenção antes de se avançar para regulação abrangente; que o AI Security Institute e acordos entre empresas fazem parte do atual arcabouço de respostas; e que o FPC já identificou elevação significativa da dívida ligada ao setor de IA. Permanecem pendentes os resultados desses testes, os pontos concretos de intervenção que venham a ser definidos e se/como um quadro regulatório formal será implementado após essa fase de ensaios.
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