Pesquisadores relataram que anões brancos — os núcleos densos deixados por estrelas de massa baixa a média — podem apresentar uma paleta de cores visíveis muito mais ampla do que o nome sugere, incluindo verde, rosa, púrpura, ciano e amarelo. O trabalho, publicado na revista RAS Techniques and Instruments, identifica o primeiro anão branco descrito como verde e o candidato ao anão branco mais avermelhado já observado.
Por que a cor de um anão branco não depende só da temperatura
Em estrelas normais a cor é ditada quase exclusivamente pela temperatura porque elas se comportam como radiadores quase perfeitos. Anões brancos frios, porém, atingem densidades extraordinárias — da ordem de 1 grama por centímetro cúbico em alguns casos, comparável à água e milhões de vezes maior que a densidade da fotosfera do Sol — e isso altera a física da radiação emitida.
Traços de elementos na atmosfera do anão branco interagem com o plasma de hélio denso e passam a absorver e transmitir luz em faixas diferentes das que teriam em condições menos extremas. Essas alterações espectrais desviam a cor esperada a partir da temperatura simples e podem produzir matizes detectáveis na luz visível.
Exemplos apontados pelos autores: sódio pode absorver a parte laranja do espectro, deixando um brilho esverdeado; concentrações de carbono próximas à superfície tendem a gerar tons rosas ou púrpura; detritos de asteroides ou cometas produzem matizes mais amareladas; e colisões entre hidrogênio e hélio em atmosferas muito densas favorecem cores ciano ou azul‑pálido.
Quais objetos o estudo destacou e que números a amostra fornece
Os autores analisaram uma amostra de 151 anões brancos dentro de um raio de cerca de 65 anos‑luz e estimam que aproximadamente 1 em cada 30 desses objetos mostrou uma cor distinta de branco. Esse resultado sugere que remanescentes estelares com colorações incomuns podem ser relativamente comuns quando extrapolados para a população total de anões brancos.
Entre os exemplos citados estão WD J1330+6435, apontado como o primeiro anão branco com aparência verde, cujo espectro indica enriquecimento por material rochoso contendo cálcio, lítio e sódio; e WD J1011+2845, localizado a cerca de 48 anos‑luz, que pode ser o anão branco mais avermelhado já observado, exibindo um brilho rosa‑salmão atribuído a carbono trazido à superfície por convecção. (A publicação Space.com reportou ainda que WD J1330+6435 estaria a cerca de 326 anos‑luz.)
Como os anões brancos são pequenos e distantes, os pesquisadores não registraram cores a olho nu, mas inferiram‑nas a partir de espectros — as impressões digitais químicas da luz — e depois converteram esses espectros para uma representação compatível com a visão humana. Essa conversão permite visualizar as tonalidades previstas, mas depende dos modelos usados para traduzir assinaturas espectrais em cores perceptíveis.
Impactos científicos e observações para o público
Para a astronomia, a conclusão principal é que a cor visível de um anão branco nem sempre é um indicador direto de temperatura: composição química e efeitos de alta densidade podem dominar a aparência. Isso amplia o potencial informativo dos espectros, permitindo usar cores inferidas para investigar a história de sistemas planetários (por exemplo, remanescentes de asteroides) e a dinâmica atmosférica desses objetos.
Para o público, os autores observam hipóteses provocativas, como a possibilidade de o Sol adquirir uma tonalidade esverdeada muito no futuro se, ao tornar‑se anão branco, começar a acumular material rochoso de planetas próximos. Essa possibilidade é apresentada pelos pesquisadores como condicional — dependente de eventos futuros de acreção — e não como um fato atual.
Os próprios autores e as reportagens que cobriram o trabalho chamam à realização de observações e modelos adicionais para mapear quantos anões brancos coloridos existem além da amostra local e para compreender com mais precisão os processos que definem cada tonalidade.
O estudo está assinado por Mark Hollands, Boris Gänsicke, Pier‑Emmanuel Tremblay e Detlev Koester, entre outros autores, e foi publicado na revista RAS Techniques and Instruments (Hollands et al., "Any colour you like: the diverse chromaticities of white dwarfs", 2026).
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