A polícia da Bolívia encontrou uma “minigranja de bots” em um endereço ligado ao consultor político Fernando Cerimedo. Cerimedo foi detido na última semana, acusado de tentativa de feminicídio contra a ativista e advogada Nadia Beller, que o acusa de ser o mandante do ataque. A localização da operação digital ocorreu no curso das buscas relacionadas ao atentado.
Ligação de Cerimedo à operação e seu perfil público
Fernando Cerimedo é um marketeiro digital descrito pela reportagem como estrategista de lideranças da direita e extrema‑direita na América Latina. A matéria aponta que ele assessorou, entre outros, os presidentes Rodrigo Paz (Bolívia), Javier Milei (Argentina) e Nasry “Tito” Asfura (Honduras).
Cerimedo foi preso acusado de tentativa de feminicídio contra Nadia Beller. No hospital, Beller afirmou que ele a teria convencido a ir ao local onde foi ferida por disparos no pescoço, no tórax e no braço. A defesa de Cerimedo nega envolvimento e afirma que o cliente é vítima de uma armação política; a Agência Brasil informou que tentou contato com a defesa sem sucesso até o fechamento da reportagem.
A reportagem também registra que, em fevereiro de 2026, Cerimedo recebeu o prêmio de “consultor político hispânico do ano” da organização Latino Wall Street, em cerimônia realizada em Mar‑a‑Lago, e que a entrega foi feita por Eduardo Bolsonaro, cuja condenação por coação em processo judicial é mencionada na matéria.
Como era a minigranja e o que perfis coordenados fazem nas redes
As chamadas fazendas de cliques — ou fazendas de bots — são estruturas que operam perfis falsos ou automatizados para gerar curtidas, comentários e compartilhamentos, simulando mobilização social. Segundo a reportagem, a operação encontrada em La Paz foi classificada pelos fiscais como uma “minigranja de bots”.
Reynaldo Aragon, do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação, explicou que contas coordenadas repetem expressões, impulsionam hashtags, compartilham o mesmo conteúdo e interagem entre si em curto intervalo de tempo, produzindo artificialmente volume e velocidade nas redes.
O cientista político Alexandre Arns Gonzales, do Direito à Comunicação e Democracia (DiraCom), acrescenta que o objetivo é explorar algoritmos de plataformas que priorizam conteúdo com alto engajamento, transformando impulso artificial em visibilidade para ataques ou defesas coordenadas contra temas, contas ou candidatos.
Exemplos e escala: desde boatos virais a operações derrubadas
Como exemplo do efeito que esse impulsionamento pode ter, a reportagem cita uma notícia falsa que, em 2018, atingiu cerca de 30 milhões de usuários durante uma eleição, segundo os especialistas ouvidos.
Outro caso mencionado envolveu uma operação ligada a uma empresa tunisiana derrubada pelo Facebook em 2020: o Laboratório DFR relatou que mais de 900 páginas ou contas foram removidas, com aproximadamente 3,8 milhões de contas no Facebook seguindo uma ou mais dessas páginas, quase 132 mil grupos administrados por essa operação e mais de 171 mil seguidores no Instagram.
Os especialistas observam também que operações desse tipo exigem investimentos em equipamentos, celulares e pessoal; segundo a matéria, empresas como Meta e Google classificam essas práticas como “redes de comportamento inautêntico coordenado”.
Riscos eleitorais, capacidade de detecção e o curso da investigação
Sobre respostas institucionais, Alexandre Gonzales avaliou que os planos de conformidade exigidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às bigtechs podem ser uma ferramenta para identificar e denunciar indícios de redes inautênticas. Em contraste, Reynaldo Aragon afirmou que o TSE pode não estar suficientemente preparado e que é provável a existência de várias fazendas de cliques atuando no Brasil.
Aragon defende que o combate exige investigações policiais ou iniciativas da sociedade civil, porque confiar apenas nas plataformas equivaleria a regular a circulação da informação — algo que, segundo ele, as empresas evitam. A reportagem diz que o TSE não respondeu ao pedido de comentário até o fechamento.
No caso em curso na Bolívia, as apurações sobre o atentado a Nadia Beller e sobre a minigranja localizada dependem de confirmações das autoridades competentes. A relação entre a atividade digital detectada e eventuais campanhas políticas, assim como desdobramentos judiciais e ações transnacionais, ainda precisa ser confirmada pelas investigações.
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